Afinal, o que é o medo?
"Sentimento que não espairo; pois eu mesmo nem acerto com o mote disso, o que queria e o que não queria, estória sem final."
O medo é uma resposta fundamental de proteção. Ele existe para preservar a vida. O corpo percebe um possível perigo, entra em alerta, se contrai, acelera. Em muitos momentos, isso nos protege de fato. Mas a psique humana é mais complexa. Nem sempre o que nos ameaça é um risco concreto. Às vezes, o que nos assusta é errar, tentar e não compreender, ferir a imagem que fazemos de nós mesmos.
É por isso que tanta gente adia os clássicos. Não por falta de interesse, mas porque eles parecem exigir uma espécie de grandeza prévia, como se fosse preciso chegar pronto à leitura. E quase nunca é assim que as coisas vivas começam. Começam com hesitação, com insegurança, com a coragem possível de quem ainda não domina o caminho.
A leitura não pede perfeição, pede coragem.
"A vida embaralha, aperta, afrouxa, inquieta, às vezes acalma. No meio desse movimento, o que ela pede de nós é coragem."
Por que os clássicos intimidam tanto?
Porque, em torno deles, foi se formando uma espécie de aura. Como se fossem livros destinados apenas a pessoas muito cultas, muito preparadas, muito seguras de si. Como se a leitura dos clássicos exigisse uma iniciação prévia, uma inteligência excepcional ou uma familiaridade antiga com a tradição.
Pouca coisa afasta mais do que essa fantasia.
Muita gente olha para um clássico e imagina que ali encontrará dificuldade, solenidade, exigência e prova. Como se abrir um desses livros fosse entrar num espaço em que será avaliada, medida e, talvez, desautorizada.
Esse temor não nasce apenas do texto. Nasce também do que foi dito sobre ele, do modo como a literatura muitas vezes foi apresentada, e do lugar de prestígio que certos livros passaram a ocupar. Em vez de convite, eles viraram monumento. Em vez de encontro, viraram exame.
Mas um clássico não é um objeto de intimidação. É uma obra que atravessou o tempo porque tocou alguma coisa profunda da experiência humana. Amor, ciúme, ambição, vergonha, desejo, perda, ressentimento, esperança, engano, coragem. Nada disso nos é estranho.
Talvez o que intimide, no fundo, não seja a distância entre nós e os clássicos, mas a proximidade. Eles nos alcançam mais do que gostaríamos. Eles nomeiam conflitos que ainda são nossos. E, às vezes, o que assusta não é não entender um livro, é perceber que ele entendeu algo sobre nós.
"O que Deus quer é ver a gente aprendendo a ser capaz de ficar alegre a mais, no meio da alegria, e inda mais alegre ainda no meio da tristeza! Só assim de repente, na horinha em que se quer, de propósito — por coragem."
Como começar, então?
- Comece sem imaginar que precisa entender tudo.
- Comece sem exigir de si uma familiaridade que ainda não existe.
- Comece sem transformar a leitura em prova.
- Comece.
Começar algo novo sempre envolve um grau de desconhecido, tenha sido isso longamente planejado ou decidido de repente. Muitas vezes damos o primeiro passo sem saber onde aquilo vai nos levar. E talvez esteja aí uma parte importante da experiência.
Que tal se deixar conduzir um pouco por esse rio menos controlado?
Sabe quando estamos numa viagem e nos perdemos? Isso já me aconteceu muitas vezes. Quase sempre, depois da contrariedade inicial, aparecia um lugar inesperado, uma vista mais bonita, uma situação mais viva do que aquela que havia sido planejada. Algo que jamais teria acontecido se o caminho tivesse permanecido intacto.
Pode soar estranho, eu sei. Mas às vezes se perder é uma das formas mais fundas de se encontrar.
"Nonada."
Ler é uma travessia
"O real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia."
Os clássicos pedem intimidade, convivência e um tempo que não é o do relógio.
Por isso, ler um clássico talvez se aproxime menos de uma conquista imediata e mais de uma travessia. Entramos nele para habitar um ritmo, uma linguagem, uma atmosfera, uma forma de olhar para a experiência humana.
Os bons autores, especialmente os autores clássicos, não se revelam de imediato. Sustentam a estranheza inicial porque confiam em seus leitores. Confiam o suficiente para saber que eles permanecerão ali, diante do enigma, com a curiosidade infantil que conduz aos caminhos da descoberta, tão prazerosos, ou talvez ainda mais, do que a descoberta em si.
Talvez a psicanálise ajude a nomear isso. Lacan fala de um tempo lógico, um tempo que não coincide com o do relógio. Há experiências que produzem efeito em outro regime, num tempo próprio de elaboração. Com a leitura, muitas vezes acontece assim. Um livro nos atravessa e continua trabalhando em nós muito depois de fechado.
Há ainda aquilo que só se deixa perceber depois. Muitas vezes não sabemos, no instante em que lemos, o que de fato nos tocou. Só mais tarde compreendemos que uma frase permaneceu, que uma personagem nos acompanhou, que uma leitura alterou discretamente a nossa forma de pensar, sentir ou perceber. Certas transformações se deixam reconhecer só depois.
Freud, por sua vez, oferece uma chave preciosa ao falar do infamiliar, essa experiência em que o estranho toca alguma coisa íntima e conhecida. Talvez muitos clássicos nos marquem justamente por isso. À primeira vista, parecem distantes. Aos poucos, porém, devolvem sob outra luz conflitos, desejos, medos e impasses que continuam profundamente nossos.
Talvez por isso os clássicos permaneçam. Porque não se esgotam numa leitura apressada. Porque continuam trabalhando em nós depois da última página. Porque mudam de feição à medida que nós mesmos mudamos.
Por onde começar?
Na entrada dos clássicos, o desejo vale mais do que o dever-saber.
Podemos ler sozinhos? Claro. Mas e se eu te oferecer uma experiência ainda mais prazerosa?
Antes, uma pequena história.
Na minha família, temos o hábito de visitar museus quando viajamos. E quase sempre contratamos uma guia. Na nossa experiência, sua presença enriquece muito a visita. O que poderiam ser apenas obras belas, e nada contra a contemplação, muito pelo contrário, se transforma em história, contexto, detalhes, recortes mais afinados com aquilo que desejamos ver e compreender. A experiência se torna inesquecível. Algo se inscreve em nós de outro modo.
Meu filho mais novo, acostumado a essa forma de visitar museus, passou a supor que toda visita fosse guiada, que esse fosse o modo natural de percorrê-los, e não uma escolha.
Recentemente, viajando sem nós, foi sozinho a um museu. Ao chegar lá, perguntou: cadê o guia?
Foi ali que descobriu que a mediação era uma possibilidade, não uma regra. Que ele podia, sim, fazer a visita sozinho.
Depois, me contou que não havia gostado muito. Via as obras, sentia algo diante delas, era tocado por sua presença, mas faltava contexto, faltava troca, faltava alguém que o acompanhasse na travessia. Ficou encerrado na aflição de fazer um percurso bonito, mas solitário.
Nada disso diminui a experiência estética da observação, nem apaga a solidão inevitável da existência. Mas por que reservar essa solidão para momentos em que ela é de fato necessária? Por que não aproveitar a oportunidade de visitar museus, ou de ler os clássicos, em boa companhia?
Vou te contar a minha experiência.
Eu passei por todas essas etapas. Tive medo, vontade, procrastinação, sentimento de inferioridade e solidão. Até reunir coragem para tentar sozinha, perceber que não estava conseguindo e procurar alguém, ou um lugar, onde eu pudesse ser acolhida no meu medo, na minha insegurança e na minha solidão.
Foi aí que encontrei o Laboratório de Leitura, método criado e desenvolvido pelo professor Dante Gallian.
Ali, compreendi que a leitura de um clássico não precisava ser um enfrentamento solitário.
Somos seres em relação. Não nos constituímos sozinhos, nem atravessamos sozinhos tudo aquilo que nos marca. Muitas vezes, é na presença do outro que uma experiência ganha forma, nome e profundidade. Com a leitura dos clássicos, isso também pode acontecer. O que um texto desperta em nós encontra, na companhia, mais espaço para ressoar, se desdobrar e permanecer.
Talvez este seja um bom momento para começar.
Com o desejo que houver. Com a coragem possível. Com as perguntas que já o acompanham.
E, se esse começo puder ser em companhia, melhor ainda.
No Laboratório de Leitura, os clássicos são lidos em conjunto, com mediação, escuta e tempo. Para que a leitura deixe de ser uma prova solitária e se torne experiência viva, partilhada e transformadora.
Se você quiser, eu posso te acompanhar nessa travessia.